é preciso pouco

um rio atravessando o corpo
não acaba

tivesse polido antes
o princípio o concreto útero
cume alquebrado arrastando o pulso
diríamos ainda resignadamente
é rio é corpo

um corpo atravessando a falta
não acaba
até que se abra o tempo
e lhe aplaque o absurdo.

Priscila Rôde

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a noite declina ácida
amorosamente

sobre o fio irrefletido
o último sonho ainda oscila
entre o instante e o verbo

não fosse distante incubar a terra
apagar a tempo o sangue
jogar a rede e dissolvê-lo
em memórias

daria lugar ao nome.

Priscila Rôde

é quase sempre úmida
a parede deste silêncio
à vertigem impiedosa
o pequeno amor perdido
sob o azul que se conserva

dentro dos olhos: você
você que se move profusamente
você que é quase sempre úmido
úmido colher desta pedra o mundo
devolver o sono à noite –

sobreviver ao que não existe.

Priscila Rôde

§

contorno o estrondo
com um fiasco de argila

ardem os pequenos olhos
ardem sobre a água do tempo
ardem sob a face que dilui a terra

acima do todo
o pássaro suprime o voo
devora as próprias asas

o coração ressurge
dentro das coisas miúdas
intocadas pelo medo –

uma mulher não acaba.

Priscila Rôde

§

para Leonardo Macedo

da carne e do gosto
do rosto que não esvazia a noite
do silêncio que não aplaca a febre

qualquer que fosse o teu rosto
amor
saberia do cismo antes da pele
do peito haurindo escombros
saberia da flor antes da queda
do ventre ancorando abismos

qualquer que fosse o teu nome
amor
seria de sangue esse tempo
de mar esse regresso.

Priscila Rôde