Sonho I

“…E o seu corpo é só um nó de frio
Em busca de mais mar e mais vazio.”

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Torta, degolei a noite. Atemorizo, desde então, esse sonho e seus espectros: as liberdades internas tombam, rasgam o peito. Batem, batem, batem com as suas minúsculas asas amoladas de voos rasantes. Um aperto fibroso subsiste e comprime as paredes do céu com meu coração acoplado. Espalha-se no corpo. Batem, batem, batem olhos, palavras, verbos, chuvas e músculos num ritmo inexperiente, curto e apertado. Mordo os lábios. Cheiro a ferida, enxugo uma lágrima quase inteira, uma dor e meia deita na cama mas, não irradia. Uma palavra me devolve o fluxo. Sobrevivo de propósito. Amanheço na janela – solta, com ar de pássaro.

Priscila Rôde

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4 comentários em “Sonho I

  1. O regaço dos nossos territórios se tornam templos para os recortes febris da alma que perambula solta. Os delitos voejam raspando nossas fibras, em rompantes de dores quase silenciosas. A gente vive apressado, prensado pela penumbra dos dias cinzas. Só queremos liberdade sem dor, dor sem maldade. O que nos invade tenciona pesadelos inconcebíveis. Sentimos a latência, consequência dos céus que espremem o nosso corpo. Não dá pra imergir sem acreditar. Por isso, cremos numa palavra para o fluxo reajustar…

    Beijo no seu mar…

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