Desoras

Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

E o tempo… Soluço às três horas da tarde. Quentura crescente corta o ânimo. Na mesma posição desde às cinco horas da tarde anterior. Nem presença nem brisa nem nada. Muito amor. Coisa nenhuma acontece para além da penumbra em que me posiciono, com os seios maduros tocando os joelhos dobrados, ungidos por uma lealdade. Há oito meses que esse ritual me rouba o fôlego. O sofá aumenta a temperatura do corpo. Deito e penso. Deito e derreto. Deito e o desejo é mais um estranho invadindo o silêncio do meu momento sem nexo. Deito e sou um feto bem posicionado sobre a lembrança do teu passo ausente. Choro e engulo. Choro e permuto. Choro e pergunto: até onde vai esse útero recém-abandonado que não me aborta? (A pele quer transbordar, deixo que transborde). Mudo a direção, repouso as mãos no rosto, acoberto os olhos, enxergo por dentro. Mergulhada nessa vacuidade, minha escuridão é antiga e me diz quão sou repetitiva nessa mania de pensar em você e falar de você e cuidar de você que tanto me descuida. Tudo em silêncio solitário. Não há ninguém aqui para perturbar meu sonho. A escuridão transforma-se em cores, vejo todas as cores, toco todas as cores e o corpo afunda-se, esvai-se e o tempo… Soluço às seis horas da tarde. Quentura crescente corta o ânimo. Na mesma posição desde às três horas da tarde anterior. Nem presença nem brisa nem nada. Muito amor. (A pele quer ondular, deixo que ondule). Perco a direção, choro e engulo a pergunta:

até quando?

Priscila Rôde

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About the Author

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Priscila Rôde nasceu em Salvador/BA em 02 de maio de 1991. Escreve no blog Mar íntimo (priscilarodec.wordpress.com). É Autora do livro “Para que fiques”, publicado pela Editora Penalux em 2012. Tem poemas publicados na revista Mallamargens, Samizdat, revista Capitolina Cutural, revista Cultural Novitas nº 11, LiteraturaBr, Jornal Relevo e algumas revistas digitais. Participou do E-book de frases "Apenas o necessário 2" (Editora Novitas) e da organização da antologia “Crônicas de um amor crônico”, publicada pela Editora Penalux/2015.

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3 Comentários

Uma arritmia inconsequente, inconsciente que nos coloca à divisa sensorial da alma. A mente esvazia num não-saber intermitente, eclodindo a alma numa retidão que embaça as vistas, não apenas as do rosto, mas íntimas, ornadas no peito. Desavisado e dessabido, ele culmina dores nas duras reflexões do amor prepotente que circunda, impotente condição que nos amarra diante de horas facilmente transponíveis. Mal percebemos, mal sabemos um centímetro da causa que nos aflige.

Não dá. Somos vítimas de um relógio célere. Estáticos, viajamos um universo de sonhos, muito mais quando os passos são firmes na terra firme. É uma viagem solitária que acidenta o coração em dolorosas ondulações, em inomináveis sensações, indistinta existência, dificilmente mensurável…

Texto fundo Pri. Senti um aperto lendo-o.

Beijo no coração do seu mar…

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