Desoras

por Priscila Rôde

Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

E o tempo… Soluço às três horas da tarde. Quentura crescente corta o ânimo. Na mesma posição desde às cinco horas da tarde anterior. Nem presença nem brisa nem nada. Muito amor. Coisa nenhuma acontece para além da penumbra em que me posiciono, com os seios maduros tocando os joelhos dobrados, ungidos por uma lealdade. Há oito meses que esse ritual me rouba o fôlego. O sofá aumenta a temperatura do corpo. Deito e penso. Deito e derreto. Deito e o desejo é mais um estranho invadindo o silêncio do meu momento sem nexo. Deito e sou um feto bem posicionado sobre a lembrança do teu passo ausente. Choro e engulo. Choro e permuto. Choro e pergunto: até onde vai esse útero recém-abandonado que não me aborta? (A pele quer transbordar, deixo que transborde). Mudo a direção, repouso as mãos no rosto, acoberto os olhos, enxergo por dentro. Mergulhada nessa vacuidade, minha escuridão é antiga e me diz quão sou repetitiva nessa mania de pensar em você e falar de você e cuidar de você que tanto me descuida. Tudo em silêncio solitário. Não há ninguém aqui para perturbar meu sonho. A escuridão transforma-se em cores, vejo todas as cores, toco todas as cores e o corpo afunda-se, esvai-se e o tempo… Soluço às seis horas da tarde. Quentura crescente corta o ânimo. Na mesma posição desde às três horas da tarde anterior. Nem presença nem brisa nem nada. Muito amor. (A pele quer ondular, deixo que ondule). Perco a direção, choro e engulo a pergunta:

até quando?

Priscila Rôde

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