Últimos azuis

por Priscila Rôde

Esperar que alguma coisa aconteça, enquanto outra se recupera, do outro lado da chuva. Estranho. Esperar por um corpo que revele a sua substância. Desesperar-se pela distensão de um segundo que relaxou no tempo. Esperar por um amor que desobstrua esse fluxo e explique teu significado. Estranho. Esperar por uma manhã de sol comestível − iluminar-se com o estômago cheio. Abrigar-se sobre o teto sem cor, enquanto o céu acende teus últimos azuis e goteja, cai, vai-se sutil e docemente. À noite despenco para dentro dos olhos. Metade de mim fica entre o meu silêncio e o barulho da tua cama. Reclamo por inteiros, no entanto, tudo continua disforme. Te amar é um desperdício. Estranho. Espero que do inevitável ninguém jamais me desperte. Dói. Depois transcendo.

Priscila Rôde

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