(…) Tudo é um silêncio (…)

por Priscila Rôde

Levemente, ainda me condeno por sair pouco daqui. Hoje, por acaso, estou lá. Saí e sinto-me menor do que antes. Mais cansado, lento, outro. Minha alma ganhou quase três toneladas. Sonho em voltar para casa. Não sei ligar as palavras que dissolvem essa camada. Não me dedico à conversa que não estabelece maiores compromissos com o que sinto. Unidos por um pensamento plastificado. Suspeito que se programaram, ensaiaram, compactaram-se, e agora exercem a vida com arritmia, sem elasticidade. Pensamento-bolha. Mais frágil que meus próprios ouvidos – que se derramam por qualquer riso mais detalhado. Pressiono com os dedos e, foi-se. O pensamento foi-se. Um único ruído vem do ar que liberto numa explosão. O último susto que me toca vem do encontro – da minha pergunta com o externo e o interno do plástico que, com estranheza, flutuam.
Tudo é um silêncio. Ainda me condeno por não sair daqui, e sinto que só assim posso manter a consciência dilatada sobre tudo. Tudo é grande e vibra. E todos me olham com preguiça porque ainda desperdiço o “tempo que me sobra, o tempo que me falta”. O tempo que me sobra ou tempo que me falta? Ainda me condeno por não alcançar, com fluidez, a matéria das coisas pouco refletidas. Se o mundo lá fora é mesmo algum tipo de reflexo, o meu, de outras vidas, amanheceu orvalhado.

Priscila Rôde

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