Tua-minha fome

teus voos invadem minha cabeça
tuas penas comprimem a garganta

sabes que já não tenho céu
na boca nem tamanho

te engulo leve, para que voes alto
– coração-pulmão-mundo adentro –
no entanto, você me embrulha o estômago

um ponto indigesto.
dois pontos..
mais um…

tempo aos goles,
ritual à beira da cama,
beijo no ventre:

(tua fome é a minha e não responde)

regurgito para te saber melhor
lhe devolvo a substância e o chão
te entendo:

você me responde
com um amor-silêncio,
uma palavra-manto

(me toma, além-corpo)

e eu te amo
– ali mesmo, jogada, muda, na terra –
só com os olhos.

 

Priscila Rôde

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