Com a Palavra

Não existe palavra sem intenção. Toda palavra pretende. Derrama. Especializa-se em alguém ou alguma coisa. Entre um pensamento e outro, toda palavra tem a intenção de. Com ou sem razão, abriga um sujeito, ou, apenas repousa nele. Experimenta e se reafirma. Não existe palavra sem intenção. É um ser-sem-querer-querendo-muito. Existe palavra sem noção. Palavra perdendo o tino. Perdendo-se. A palavra Saudade, por exemplo, perde-se no outro quando se diz para matar a própria fome de proximidades. A palavra Proximidade nasce para discutir beijos e distâncias. Palavra Beijo, geralmente, é silêncio-com-silêncio, estralada ou não, na folha é sempre úmida. A palavra Longe constrói estradas em “n”, uma curva, um U de cabeça pra baixo – ao percorrê-la, dispensamos o aceno. Palavra Aceno pode até engolir choros, mas, declama adeuses e vive à beira da palavra Lágrima – que pode cair depois, dos olhos ou no esquecimento. A palavra Depois é preguiçosa – a minha, pelo menos, é – e coleciona ontens que não deram certo; vãos lugares. Na palavra Amor sempre há um quê de agora, um quê de qualquer coisa que risca urgente e em vermelho – cor de desejo encontrado. Encontro-desencontro. Não existe palavra Amor sem intenção. Se houvesse palavra sem intenção, pouco sentida, essa calcularia entrelinhas pra comover elogios. Palavra Elogio é curta e pode vir a ser rasa e – e em qualquer lugar, a qualquer momento – desaprender arrepios. E sabemos: palavra Arrepio é uma palavra-lugar, o recomeço da pele que repleta de emoção, eriça os (p)elos. Vai e volta. Inicia e finaliza textos. Texto é palavra que, às vezes, finge desconhecer o próprio fim só pra não ter que dizê-lo. Fim é a palavra-destino de quase todas as palavras. Terminal amoroso dos que acertam. Palavra boa é palavra que acerta – mesmo quando nasce desprovida de certezas. Palavra boa é palavra que ama. Palavra que não ama, só faz ruído. Palavra que não ama, encolhe. Palavra que não ama, morre. Palavra que ama, se reinventa. Palavra que ama não faz sentido – faz prosa, poesia, poema. Palavra que ama, não tem remédio. Siga as instruções – do (in)verso, sempre.

Priscila Rôde

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Priscila Rôde nasceu em Salvador/BA em 02 de maio de 1991. Escreve no blog Mar íntimo (priscilarodec.wordpress.com). É Autora do livro “Para que fiques”, publicado pela Editora Penalux em 2012. Tem poemas publicados na revista Mallamargens, Samizdat, revista Capitolina Cutural, revista Cultural Novitas nº 11, LiteraturaBr, Jornal Relevo e algumas revistas digitais. Participou do E-book de frases "Apenas o necessário 2" (Editora Novitas) e da organização da antologia “Crônicas de um amor crônico”, publicada pela Editora Penalux/2015.

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