À espera do que sei

Dentro é um caminho sem regressos. Deito e o vazio de uma estrada endurecida me engole. O pensamento me engole. Suplico que me metabolize, que me prive do fora-mundo que me fora destinado. Quero o centro do meu quarto. Busco meu incognoscível quarto. O inconsciente do meu quarto. A camada mais profunda. Sinto que não estou onde penso que estou. Minha mente lampeja, viaja para o drama que sucederá meu corpo. O amanhã espera o que já sabe.

(…)

A hora transforma-se em um quadro irreconhecível. Quadro que me dói os olhos de tanto vivê-lo sem vontade. Dói-me o tempo das histórias não permitidas. Não quero meu agora adulterado e por não querê-lo, adianto a nascente de teus lugares futuros. Adianto a colheita do horizonte recém-plantado. Traduzo a linguagem balbuciada. A hora inexistente se diz em estado de hoje. Antes de despontar a palavra que tudo abre e converte, o amanhã já habilitou-se em ser. Vivo-o pela primeira vez com o meu mais inconsciente calendário. Viverei por duas vezes: agora e depois – depois porque um tempo certo lhe foi outorgado, agora porque sou a tua pressa.

Passei a semana esquecendo ou, lembrando sozinha, lembrando com disfarces, lembrando sem substância suficiente para não me afundar nos sulcos do rosto. Passei a semana lembrando-me de esquecer esse dia que chegaria antes do tempo – meu sofrimento antecipado. Adianto-me para sofrê-lo longe dos olhos. Adianto-me para bebê-lo sem interferências. Adianto-me na dor para doê-la sem barulhos outros. Que o amanhã me anteceda logo – peço com a mão entre os seios para dar força e amor à fraqueza. Levanto e espero-o. Levanto e imagino-o. Levanto e abro a porta com danação, sem respeito. Abro-a e vejo-me ignota e condenada. Vejo-me retalhada, entre tantos. Desconheço-me em todos, mas, conheço tudo de cada um – tudo pode ser pouco. Tudo pode até não ser.

Da porta, desmereço trivialidades. Esse abraço não me levará a lugar nenhum – aceno com o corpo pendendo para os dois lados. Não sairemos dos braços. Continuarei estranha distante, sem culpa nem absolvição. Dentro é um caminho sem regressos. Fora é o lugar mais sozinho que já visitei.

(…)

Priscila Rôde

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About the Author

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Priscila Rôde nasceu em Salvador/BA em 02 de maio de 1991. Escreve no blog Mar íntimo (priscilarodec.wordpress.com). É Autora do livro “Para que fiques”, publicado pela Editora Penalux em 2012. Tem poemas publicados na revista Mallamargens, Samizdat, revista Capitolina Cutural, revista Cultural Novitas nº 11, LiteraturaBr, Jornal Relevo e algumas revistas digitais. Participou do E-book de frases "Apenas o necessário 2" (Editora Novitas) e da organização da antologia “Crônicas de um amor crônico”, publicada pela Editora Penalux/2015.

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