No fundo

Aos domingos morremos mais cedo, Pina me dizia. Corre-se contra o tempo: é o último dia, o único capaz de salvar uma semana inteira repleta de idas e vindas e horas e sacos ainda mais cheios. O quarto é o mesmo da quinta-feira passada do mês anterior de um ano inconcluso. O mesmo pó de ontem e de antes e de sempre. Desarrumados uns sobre os outros. Os lençóis e as roupas e os pesos dos corpos amassados rentes ao único fiasco de sol possível. Um ranço disforme, um cheiro de cansaço que se instala e acontece antes do tempo ser tempo, antes de começar de novo.

Eu gostava bem quente e mais amargo: apenas um gole e era tudo, mas, era o mesmo. A rotina sob quarenta graus de tédio. Como seríamos se durássemos para sempre? Intragáveis! – uma resposta de segundos ou menos. Um corpo tão pequeno não resiste tanto tempo. Não é o corpo que resiste à travessia, é alguma coisa dentro que nos acende e nos atira, à queima-roupa, em alguma outra coisa forte e livre. E aí a gente volta.

Volta?

Um passarinho ainda canta, insistente. Há um grupo, talvez. Um punhado de passarinhos amigos que cantam ou conversam? Brigam? Discutem sobre a vida humana ou apenas expressam um canto inofensivo com aquele ar de eterno? A ternura é quase ensurdecedora, Pina. Você finge que ela não está ali, vira o rosto, distrai-se com os bipes e ela volta, pura e destemida carcomida por pássaros. E você nunca mais será a mesma.

As roupas já estão estendidas. Os bichos alimentados. Hoje seria o day-off de quase todos: tudo desligado, menos eu e você e os meninos-cachorros-de-uma-vida-inteira. E as plantas. E as palavras. E os troncos. E as contas que, no fundo, são as únicas que mudam: cada dia maiores. Veja, pra que isso ou aquilo? Pra que tanto sonho?

Sabemos que isso não nos levará a uma estrada maior, Pina. Essa é a única que temos: há que se esgotar por inteiro e esvaziar todas as possibilidades e ainda assim, outras estarão à direita e à esquerda e dentro e fora. Tudo está constantemente acabando? Você sabe o lado certo do fundo mais fundo? Eu quero chegar lá pra saber quão maior é o meu corpo e como a gente fica no mundo quando a gente finge que vai embora. Por que a gente nunca vai.

Vai?

*

Priscila Rôde

Anúncios